segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Patrimônio ameaçado pelo tempo, o clima e a burocracia

Sem trabalhos de restauro, Arquivo Público do Ceará conserva documentos de forma precária
Um mundo de papel à procura de conservação. No entanto, só a restauração poderia salvar parte do acervo de documentos do Arquivo Público do Ceará, cujo trabalho necessita de uma intervenção urgente. O motivo é agilizar a tarefa que era realizada, até o mês de setembro, por três estagiários formados pela Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, sob a coordenação da técnica Isa Lessa Mendes, responsável pelo laboratório de conservação e restauração do Arquivo Público do Ceará.

Estagiários do Arquivo Público do Estado do Ceará trabalham na conservação da documentação cartorial dos séculos XIX e XX: a equipe de jovens não conseguiu renovar seu vínculo com a instituição para os próximos três meses FOTO: NATASHA MOTA

O trabalho realizado parece mais o de "formiguinha" diante da mar de papeis, alguns irrecuperáveis devido ao alto grau de deterioração. A poeira é outra inimiga dos que trabalham e pesquisam no equipamento, já que os livros que se encontram à venda, logo na entrada, são cobertos de pó. A equipe só realiza o trabalho de conservação, devido à falta de infraestrutura e de pessoal para o restauro.

Os processos guardados em caixas de papelão, dispostos em estantes abertas, sofrendo as ações do tempo e do clima são mostras de que a memória do Estado está em perigo. A prova são livros desgastados que, de tão desidratados, esfarelam-se, caso sejam manuseados. Nem pensar em fotografar ou escanear porque o desastre seria ainda maior, adverte a técnica que demonstra sensibilidade ao falar sobre o assunto.

Precariedade
No Arquivo Público, trabalha-se na manutenção e recuperação de documentos dos séculos XVIII e XIX, provenientes das câmaras municipais do Ceará. "Hoje, trabalhamos com a conservação", explica a coordenadora Isa Lessa, afirmando que a restauração ainda não está em funcionamento. Por enquanto, o trabalho consiste na higienização, folha a folha, de cada processo e o acondicionamento em pastas.

Alguns documentos já limpos estão guardados em caixas de material apropriado de cor branca, dentro de pastas de papel neutro, e cada folha revestida em um tipo de plástico especial para este fim. No momento, estão sendo trabalhados os documentos das câmaras dos municípios de Acaraú, Beberibe, Aquiraz, Arneiroz, Crato, Cascavel e Baturité. "São documentos oficiais de todos os municípios cearenses", diz, esclarecendo que alguns estão digitalizados.

A técnica está há quatro meses à frente do laboratório, sempre trabalhando com estagiários num espaço pequeno, com ventilação precária e que mal comporta os equipamentos (mesas de higienização, de luz, sucção e prensa secadora). Um ventilador em cima de uma cadeira de plástico melhora a ventilação do ambiente. A sala de pesquisa fica na parte superior do equipamento, localizado na Rua Senador Alencar, no Centro. Os usuários reclamam da demora para encontrar um documento, sendo necessário sorte para aquele procurado estar higienizado e pronto para ser utilizado. Alguns não têm mais condições de ser pesquisados ou manuseados. Dessa maneira, parte da memória daquele município e, consequentemente, do Estado está indo embora.

Sem renovação
Os estagiários trabalham por três meses. Porém, no momento, foi negada a renovação do estágio, conforme o diretor do Arquivo Público do Ceará, Márcio Porto. "Não temos muitos profissionais na área da restauração aqui", afirma Isa Lessa. Ela mesma tem formação técnica na área. Um dos requisitos para ser restaurador é ter formação em História, Química ou Biblioteconomia.

A coordenadora de Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, Nilde Ferreira, afirma que a primeira turma de 40 jovens foi formada entre 2006 e 2008. Na escola, são ofertados cursos técnicos livres. Nilde lamenta que as empresas não consigam absorver essa mão de obra. E, nem tampouco, os órgãos públicos. "O campo de trabalho é enorme", diz, informando que a Escola forma turmas todos os anos em preservação de bens móveis.

Na esfera pública, o impedimento é a burocracia para a absorção desses profissionais. Nilde pretende formar um banco de dados, de acordo com cada área, atingindo colecionadores privados, explicando que esses profissionais têm condições de fazer uma higienização correta nos acervos. "Eles são especializados nisso", acrescenta.

O ideal é que um acervo, seja de livros ou de objetos de arte, mantenha-se conservado para garantir a sua manutenção. A higienização periódica é um dos caminhos para que não chegue ao estágio extremo da restauração. A formação oferecida na escola é ampla e diversa para a conservação dos bens móveis e imóveis. Esses profissionais sabem manusear, fazer uma higienização correta em obras de arte e auxiliar em seu eventual restauro.

Perfil

Enquanto a burocracia impede que os jovens continuem trabalhando na área, eles tecem sonhos entre papéis, poeira e produtos químicos. Ronaldo Rocha de Araújo, 25 anos, terminou o segundo curso de conservação. "Quero fazer Arquitetura", responde sem hesitar sobre qual a profissão que pretende seguir. Promete juntar teoria e prática, enquanto participa de oficinas e novos cursos que aparecem. Roberto Moreira Chaves, 18 anos, descobriu a vocação profissional na Escola. "Quero fazer História", diz com o entusiasmo peculiar aos jovens, aproveitando para fazer uma declaração de amor à arte.

"Sempre gostei de arte. Adoro", vibra o jovem, afirmando que já tinha interesse pelo acervo documental da família. Conta que pratica no Arquivo Público e em casa o que aprende. Ronaldo Rocha trabalhou na restauração de uma obra de Vicente Leite, enquanto Roberto Chaves orgulha-se de ter participado do restauro da obra da pintora cearense Sinhá D´Amora. "Faltava pigmento",explica, afirmando que o trabalho estava muito comprometido com cupins na tela. "A tela do Vicente Leite estava muito degradada", lembra Ronaldo Rocha.

Kellen Neres, 19 anos, que antes fazia trabalho voluntário, descobriu na Escola a sua vocação para a Arquitetura e Urbanismo. "Ou Engenharia Civil. Não conhecia muito sobre essas áreas", confessa, completando ter se identificado muito com essa área da conservação e restauração. A estudante avisa que o trabalho exige habilidade por muito meticuloso. "Um pequeno pontinho na página do livro pode ser um fungo", explica, afirmando que as pessoas devem aprender a cuidar dos acervos, no caso dos livros, fazer o manuseio e a higienização corretos. "Assim vai facilitar o nosso trabalho", brinca. (IS)

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1189733 

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