Um mundo de papel à procura de conservação. No entanto, só a restauração poderia salvar parte do acervo de documentos do Arquivo Público do Ceará, cujo trabalho necessita de uma intervenção urgente. O motivo é agilizar a tarefa que era realizada, até o mês de setembro, por três estagiários formados pela Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, sob a coordenação da técnica Isa Lessa Mendes, responsável pelo laboratório de conservação e restauração do Arquivo Público do Ceará.
O trabalho realizado parece mais o de "formiguinha" diante da mar de papeis, alguns irrecuperáveis devido ao alto grau de deterioração. A poeira é outra inimiga dos que trabalham e pesquisam no equipamento, já que os livros que se encontram à venda, logo na entrada, são cobertos de pó. A equipe só realiza o trabalho de conservação, devido à falta de infraestrutura e de pessoal para o restauro.
Precariedade
No Arquivo Público, trabalha-se na manutenção e recuperação de documentos dos séculos XVIII e XIX, provenientes das câmaras municipais do Ceará. "Hoje, trabalhamos com a conservação", explica a coordenadora Isa Lessa, afirmando que a restauração ainda não está em funcionamento. Por enquanto, o trabalho consiste na higienização, folha a folha, de cada processo e o acondicionamento em pastas.
Alguns documentos já limpos estão guardados em caixas de material apropriado de cor branca, dentro de pastas de papel neutro, e cada folha revestida em um tipo de plástico especial para este fim. No momento, estão sendo trabalhados os documentos das câmaras dos municípios de Acaraú, Beberibe, Aquiraz, Arneiroz, Crato, Cascavel e Baturité. "São documentos oficiais de todos os municípios cearenses", diz, esclarecendo que alguns estão digitalizados.
Sem renovação
Os estagiários trabalham por três meses. Porém, no momento, foi negada a renovação do estágio, conforme o diretor do Arquivo Público do Ceará, Márcio Porto. "Não temos muitos profissionais na área da restauração aqui", afirma Isa Lessa. Ela mesma tem formação técnica na área. Um dos requisitos para ser restaurador é ter formação em História, Química ou Biblioteconomia.
A coordenadora de Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, Nilde Ferreira, afirma que a primeira turma de 40 jovens foi formada entre 2006 e 2008. Na escola, são ofertados cursos técnicos livres. Nilde lamenta que as empresas não consigam absorver essa mão de obra. E, nem tampouco, os órgãos públicos. "O campo de trabalho é enorme", diz, informando que a Escola forma turmas todos os anos em preservação de bens móveis.
Na esfera pública, o impedimento é a burocracia para a absorção desses profissionais. Nilde pretende formar um banco de dados, de acordo com cada área, atingindo colecionadores privados, explicando que esses profissionais têm condições de fazer uma higienização correta nos acervos. "Eles são especializados nisso", acrescenta.
O ideal é que um acervo, seja de livros ou de objetos de arte, mantenha-se conservado para garantir a sua manutenção. A higienização periódica é um dos caminhos para que não chegue ao estágio extremo da restauração. A formação oferecida na escola é ampla e diversa para a conservação dos bens móveis e imóveis. Esses profissionais sabem manusear, fazer uma higienização correta em obras de arte e auxiliar em seu eventual restauro.
Perfil
Enquanto a burocracia impede que os jovens continuem trabalhando na área, eles tecem sonhos entre papéis, poeira e produtos químicos. Ronaldo Rocha de Araújo, 25 anos, terminou o segundo curso de conservação. "Quero fazer Arquitetura", responde sem hesitar sobre qual a profissão que pretende seguir. Promete juntar teoria e prática, enquanto participa de oficinas e novos cursos que aparecem. Roberto Moreira Chaves, 18 anos, descobriu a vocação profissional na Escola. "Quero fazer História", diz com o entusiasmo peculiar aos jovens, aproveitando para fazer uma declaração de amor à arte.
"Sempre gostei de arte. Adoro", vibra o jovem, afirmando que já tinha interesse pelo acervo documental da família. Conta que pratica no Arquivo Público e em casa o que aprende. Ronaldo Rocha trabalhou na restauração de uma obra de Vicente Leite, enquanto Roberto Chaves orgulha-se de ter participado do restauro da obra da pintora cearense Sinhá D´Amora. "Faltava pigmento",explica, afirmando que o trabalho estava muito comprometido com cupins na tela. "A tela do Vicente Leite estava muito degradada", lembra Ronaldo Rocha.
Kellen Neres, 19 anos, que antes fazia trabalho voluntário, descobriu na Escola a sua vocação para a Arquitetura e Urbanismo. "Ou Engenharia Civil. Não conhecia muito sobre essas áreas", confessa, completando ter se identificado muito com essa área da conservação e restauração. A estudante avisa que o trabalho exige habilidade por muito meticuloso. "Um pequeno pontinho na página do livro pode ser um fungo", explica, afirmando que as pessoas devem aprender a cuidar dos acervos, no caso dos livros, fazer o manuseio e a higienização corretos. "Assim vai facilitar o nosso trabalho", brinca. (IS)
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1189733
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